Gonçalo Meira: “Os postais circulados têm alma”

Há um colecionador de Viana do Castelo que celebra a passagem do tempo através de postais. Conheça aqui Gonçalo Meira, o proprietário dos postais em exposição na mostra “Os Usos e Costumes de Viana Através do Postal Ilustrado”.

“Tereza,

Chegamos bem. Apanhamos muito calor. A Emília está bem e tudo tem corrido pelo melhor. Vamos dar um passeio de automóvel que nos vai tomar a tarde toda.

Despeço-me com saudade,

Cândido.

Seixal, 07 de setembro de 1905”

São mais de cinco mil postais.  Entre pedidos de namoro, saudações ou outros sentimentos eternizados em mensagens e paisagens que nos fazem recuar mais de 100 anos, é no escritório de Gonçalo Meira que o tempo da cidade de Viana do Castelo parece não passar.

Em álbuns vermelhos encontram-se postais de pessoas, tradições, costumes e paisagens. Do preto e branco às cores, o mais antigo, conta-nos, é do século XIX. “Os postais – principalmente os circulados – têm alma. Coleciono há mais de 40 anos e ainda sinto nostalgia sobre o tempo antigo.”

Enquanto Gonçalo Meira folheia os álbuns da sua coleção, viaja-se no tempo. Saltam ao olhar os projetos para a construção do templo de Santa Luzia, duas crianças a brincarem, vestidos longos e chapéus da época indispensáveis ao público masculino e até um dos primeiros automóveis a passear por Viana do Castelo.

Nos 40 anos de colecionador, Gonçalo Meira assistiu a uma evolução nos temas, mas também na forma como descobre os seus postais. “Comecei a colecionar numa altura em que os postais eram acessíveis. Deslocava-me até à capital e visitava todos os alfarrabistas e feiras. Todo o tempo livre que dispunha, era para procurar postais. Com o passar do tempo, comecei a comprar os postais através da internet”.

Nas procuras pela cidade de Lisboa, o colecionador conta-nos uma história peculiar: “Em diferentes locais e em diferentes alturas, encontrei postais com a mesma assinatura. São de um homem chamado Joaquim e datam o ano de 1905. Não existe nenhuma mensagem. Apenas a assinatura. Encontrei, no total, quinze postais deste homem. A curiosidade é tanta que gostava de o ter conhecido para me contar a história por trás destes postais de Viana.”

Folheia mais uma página nos seus álbuns para mostrar um postal que terá custado 800 escudos. Quando questionado sobre se já teria recebido alguma proposta de compra da coleção, Gonçalo Meira não hesita: “Nestes álbuns está o tempo que perdi, os contactos que fiz, as amizades que criei. Tem um valor sentimento, informativo e cultural que não tem preço para mim”.

Este guardião do tempo de Viana de Castelo em postais fecha o álbum confessando que “ainda faltam alguns para terminar”, mas que tem em mente projetos para o futuro sobre as mensagens que guarda religiosamente no seu escritório.

Alguns destes postais estão expostos no nosso Centro e pode apreciá-los bem de perto até 25 de maio, no piso 1, na mostra “Os Usos e Costumes de Viana Através do Postal Ilustrado”, que marca o início do Pulsar Viana 2018.

 

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